terça-feira, 15 de março de 2011

Espaço Físico


São dois os espaços físicos nos quais se desenrola a acção: Lisboa e Mafra.
Ø  Lisboa, enquanto macroespaço, integra outros espaços:
ü  TERREIRO DO PAÇO,
ü  ROSSIO
ü  SÃO SEBASTIÃO DA PEDREIRA

Ø  Terreiro do Paço
Local onde Baltasar trabalha num açougue, após a sua chegada a Lisboa. É onde decorre a procissão do Corpo de Deus.
Ø  Rossio
Este espaço aparece no início da obra como o local onde decorrem o auto-de-fé e a procissão da Quaresma ou dos penitentes.
Ø  S. Sebastião da Pedreira
Trata-se de um espaço relacionado com a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão, ligada, assim, ao carácter mítico da máquina voadora. No época, S. Sebastião da Pedreira era um espaço rural, onde existiam várias quintas que integravam palacetes.

Ø  Mafra é o segundo macroespaço. Até à construção do convento, a vida de Mafra decorria na vila velha e no antigo castelo, próximo da igreja de Sto. André.
A Vela foi o local escolhido para a construção do convento, que deu lugar à vila nova, à volta do edifício. Nas imediações da obra, surge a "Ilha da Madeira", onde começaram por se alojar dez mil trabalhadores, ascendendo, mais tarde, a quarenta mil.
Além de Mafra, são ainda referidos espaços como Pêro Pinheiro, a serra do Barregudo, Monte Junto e Torres Vedras.

Caracterização do Povo

Ø  O verdadeiro protagonista de Memorial do Convento é o povo trabalhador. Espoliado, rude, violento, o povo atravessa toda a narrativa, numa construção de figuras que, embora corporizadas por Baltasar e Blimunda, tipificam a massa colectiva e anónima que construiu, de facto, o convento.
Ø  A crítica e o olhar mordaz do narrador enfatizam a escravidão a que foram sujeitos quarenta mil portugueses, para alimentar o sonho de um rei megalómano ao qual se atribui a edificação do Convento de Mafra.
Ø  A necessidade de individualizar personagens que representam a força motriz que erigiu o palácio-convento, sob um regime opressivo, é a verdadeira elegia de Saramago para todos aqueles que, embora ficcionais, traduzem a essência de ser português:
Ø  GRANDES FEITOS, COM GRANDE ESFORÇO E CAPACIDADE DE SOFRIMENTO

domingo, 13 de março de 2011

Caracterização das Personagens

D. JOÃO V
Ø  Amante dos prazeres humanos, a figura real é construída através do olhar crítico do narrador, de forma multifacetada:
ü  é o devoto fanático que submete um país inteiro ao cumprimento de uma promessa pessoal (a construção do convento, de modo a garantir a sucessão) e que assiste aos autos-de-fé;
ü  é o marido que não evidencia qualquer sentimento amoroso pela rainha, apresentando nesta relação uma faceta quase animalesca, enfatizado pela utilização de vocábulos que remetem para esta ideia (como a forma verbal" emprenhou" e o adjectivo "cobridor");
ü  é o megalómano que desvia as riquezas nacionais para manter uma corte dominado pelo luxo, pela corrupção e pelo excesso;
ü  é o rei vaidoso que se equipara o Deus nas suas relações com as religiosas; é o curioso que se interessa pelas invenções do padre Bartolomeu de Gusmão;
ü  é o esteta que convida Domenico Scarlatti a permanecer em Portugal;
ü  é o homem que teme a morte e que antecipa a sua imortalidade, através da sagração do convento no dia do seu quadragésimo primeiro aniversário.



D. MARIA ANA JOSEFA
Ø  A rainha representa a mulher que só através do sonho se liberta da sua condição aristocrática para assumir a sua feminilidade.
Ø  D. Maria Ana é caracterizada como uma mulher
ü  passiva,
ü  insatisfeita,
ü  que vive um casamento baseado na aparência, na sexualidade reprimida e num falso código ético, moral e religioso.
Ø  A transgressão onírica é a única expressão da rainha que sucumbe, posteriormente, ao sentimento de culpa. A pecaminosa atracção incestuosa que sente por D. Francisco, seu cunhado, conduzem-na a uma busca constante de redenção através da oração e da confissão. - COMPLEXO DE CULPA.
Ø  A rainha vive num ambiente repressivo, cujas proibições regem a sua existência e para a qual não há fuga possível, a não ser através do sonho, onde pode explorar a sua sensualidade.
Ø  Consciente da virilidade e da infidelidade do marido (abundam os filhos bastardos), D. Maria Ana assume uma atitude de passividade e de infelicidade perante a vida.

BALTASAR SETE-SÓIS

Ø  Baltasar Mateus é um dos membros do casal protagonista da narrativa.
Ø  Representa a crítica do narrador à desumanidade da guerra, uma vez que participa na Guerra da Sucessão (1704-1712) e, depois de perder a mão esquerda, é excluído do exército.
Ø  Construído enquanto arquétipo da condição humana, Baltasar Sete-Sóis é um homem pragmático e simples, que assume o papel de demiurgo na construção da passarola (ao realizar o sonho de Bartolomeu de Gusmão).
Ø  Participa na construção do convento e partilha, através do silêncio, a vida de Blimunda Sete-Luas. Sucumbe às mãos da Inquisição.

BLIMUNDA SETE-LUAS

Ø  Blimunda é o segundo membro do casal protagonista da narrativa. Mulher sensual e inteligente, Blimunda vive sem subterfúgios, sem regras que a condicionem e escravizem.

Ø  Dotada de poderes invulgares, como a mãe, escolhe Baltasar para partilhar a sua vida, numa existência de amor pleno, de liberdade, sem compromissos e sem culpa.
Ø  Blimunda representa o transcendente e a inquietação constante do ser humano em relação à morte, ao amor, ao pecado e à existência de Deus.
Ø  O seu dom particular (ecovisão) transfigura esta personagem, aproximando-a da espiritualidade da música de Scarlatti e do sonho de Bartolomeu de Gusmão.
Ø  Ao visualizar a essência dos que a rodeiam, Blimunda transgride os códigos existentes e percepciona a hipocrisia e a mentira.

FREI BARTOLOMEU LOURENÇO DE GUSMÃO

Ø  O padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão representa as novas ideias que causavam estranheza na inculta sociedade portuguesa.
Ø  Estrangeirado, Bartolomeu de Gusmão tornou-se um alvo apetecido do chacota da corte e da Inquisição, apesar da protecção real.
Ø  Homem curioso e grande orador sacro (a sua fama aproxima-o do padre António Vieira).
Ø  Bartolomeu de Gusmão evidenciou, ao longo da obra, uma profunda crise de fé, a que as leituras diversificadas e a postura "antidogmática" não serão alheios, numa busca incessante do saber.
Ø  A sua personagem risível - era conhecido por "Voador" - torna-o elemento catalisador do voo do passarola, conjuntamente com Baltasar e Blimunda.
Ø  A tríade corporiza o sonho e o empenho tornados realidade, a par da desgraça, também ela, partilhada (loucura e morte, em Toledo, de Bartolomeu de Gusmão, morte de Baltasar Sete-Sóis no auto-de-fé e solidão de Blimunda).


DOMENICO SCARLATTI

Ø  Scarlatti representa a arte que, aliada ao sonho, permite a cura de Blimunda e possibilita a conclusão e o voo da passarola.

 

quinta-feira, 3 de março de 2011

Invenção da Passarola Voadora


A Passarola Voadora foi um "instrumento de andar pelo ar", como consta da petição de privilégio do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão ao rei D. João V, e de que teve alvará, a 19 de Abril de 1709. Nesse mesmo ano, a 8 de Agosto, na sala dos embaixadores da Casa da Índia, apresentou a sua primeira experiência elevando a uns 4 metros um pequeno balão de papel, cheio de ar quente, perante a admiração da Corte, do Núncio Apostólico, Cardeal Conti (futuro papa Inocêncio XIII) e do Corpo Diplomático (como referem documentos da época).
Depois de Leonardo da Vinci, no século XVI, ter desenhado a primeira máquina voadora, o padre Bartolomeu torna-se num pioneiro da história da aviação ao conseguir inventar um aeróstato, o primeiro engenho capaz de se elevar no ar. Mais tarde, em 1783, os irmãos Montgolfier (Joseph e Étienne) irão lançar em Annonay, em França, um balão de ar quente capaz de transportar pessoas.
O padre Bartolomeu Lourenço (Santos, Brasil, 1685-Toledo, Espanha, 1724) era um visionário, que acreditava na ciência e nas capacidades dos homens. Mas o inventor português parece ter sido forçado a fugir à Inquisição, embora a tenha evitado, durante muito tempo, pela amizade do Rei.
Em Memorial do Convento, José Saramago vai recordar o sonho e a construção da passarola voadora pelo padre Bartolomeu de Gusmão, considerando que, para a Inquisição e outras autoridades da Igreja do século XVIII, eram pecados a ambição e o orgulho em fazer uma máquina voar.


Obras mais importantes do reinado de D. João V

O Convento de Mafra, a Capela de S. João Baptista na Igreja de S. Roque, o Palácio das Necessidades, a Casa da Moeda, a Basílica Patriarcal de Lisboa e o Aqueduto das Águas Livres são exemplos de algumas grandes obras do monarca. “D. João V é o expoente de uma época de riqueza, de fausto, de obras de arte magníficas. Aproveitou a riqueza que ia chegando do Brasil para investir em obras que ficaram até os nossos dias”, refere a escritora Isabel Alçada. “O Brasil era território português e, por isso, era natural que se explorassem as riquezas de Portugal”, acrescenta António Sousa Cardoso, director-geral da Associação de Jovens Empresários. Reconstruiu um país no Velho Continente e construiu outro país no Novo, um esforço hercúleo, pouco divulgado.
(Convento de Mafra)

Reinado de D.João V

Culturalmente, o reinado de D. João V tem aspectos de interesse. O barroco manifesta-se na arquitectara, mobiliário, talha, azulejo e ourivesaria, com grande riqueza. No campo filosófico surge Luís António Verney com o Verdadeiro Método de Estudar e, no campo literário, António José da Silva.


Com o reinado de D. João V, Portugal atingiu um fulgor e prosperidade que não conhecia desde a Restauração, em 1640. A exploração do ouro brasileiro deu ao monarca uma forte e independente fonte de riqueza. Permitiu, por exemplo, sustentar obras monumentais, que ainda hoje são um marco do estilo barroco no País. "Percebeu que uma nova identidade de Portugal tinha que ver com a acumulação de bens.


José Saramago

Filho e neto de camponeses sem terra, José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo, no ia 16 e Novembro de 1922, se bem o registo oficial mencione, como data do nascimento o dia 18. Os seus pais emigraram para Lisboa quando ele não perfizera ainda dois anos de idade. A maior parte da sua vida decorreu portanto na capital, embora até ao princípio da idade madura tivessem sido numerosas, e às vezes prolongadas, as suas estâncias na aldeia natal. Fez estudos secundários (liceal e técnico) que não pôde continuar por dificuldades económicas. No seu primeiro emprego foi serralheiro mecânico, tendo depois exercido depois diversas profissões, a saber: desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, editor, tradutor, jornalista. Publicou o seu primeiro livro, um romance ("Terra do Pecado"), em 1947, tendo estado depois sem publicar até 1966. Trabalhou durante doze anos numa editora, onde exerceu funções de direcção literária e de produção. Colaborou como crítico literário na Revista "Seara Nova". Em 1972 e 1973 fez parte da redacção do Jornal "Diário de Lisboa" onde foi comentador político, tendo também coordenado, durante alguns meses, o suplemento cultural daquele vespertino. Pertenceu à primeira Direcção da Associação Portuguesa de Escritores. Entre Abril e Novembro de 1975 foi director-adjunto do "Diário de Notícias". Desde 1976 vive exclusivamente do seu trabalho literário, primeiro como tradutor, depois como autor. Casou com Pilar del Río 1988 e em Fevereiro de 1993 passou a dividir o seu tempo entre a sua residência em Lisboa e a ilha de Lanzarote, no arquipélago de Canárias (Espanha). Em 1988 foi-lhe atribuído o Premio Nobel de Literatura. José Saramago morreu a 18 de Junho de 2010.